segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Encontro de 05/08/07

Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia. Levantou ele os olhos, olhou, e eis três homens de pé em frente dele. Vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro, prostrou-se em terra e disse: Senhor meu, se acho mercê em tua presença, rogo-te que não passes do teu servo; traga-se um pouco de água, lavai os pés e repousai debaixo desta árvore; trarei um bocado de pão; refazei as vossas forças, visto que chegastes até vosso servo; depois, seguireis avante. Responderam: Faze como disseste. Apressou-se, pois, Abraão para a tenda de Sara e lhe disse: Amassa depressa três medidas de flor de farinha e faze pão assado ao borralho. Abraão, por sua vez, correu ao gado, tomou um novilho, tenro e bom, e deu-o ao criado, que se apressou em prepará-lo. Tomou também coalhada e leite e o novilho que mandara preparar e pôs tudo diante deles; e permaneceu de pé junto a eles debaixo da árvore; e eles comeram. (Gênesis 18:1-8)

Abraão foi visitado pelo próprio Senhor, sem dúvida. Quando viu aqueles três varões, de alguma forma entendeu isso e se prostrou - e sua adoração foi aceita.

A razão da visita sobrenatural era a anunciação de um acontecimento relevante na vida de Abraão: Sara teria um filho.

Essa missão não precisaria de mais do que alguns minutos para ser cumprida. A aparição, o anúncio maravilhoso e a despedida. A princípio seria só isso.

Mas Abraão deteve o Senhor.

Ele queria mais tempo, sua alma precisava de mais proximidade. Talvez ele desejasse fazer perguntas ou raciocinar melhor. Ou foi movido apenas por um desejo quase instintivo de prolongar aquele momento glorioso, de saborear aquela presença. Talvez por isso tenha rogado: “Senhor meu, se acho mercê em tua presença, rogo-te que não passes do teu servo.” Curiosamente o Senhor deixou-se ficar. Aceitou a hospitalidade de Abraão.

Foi providenciada água para lavar-lhes os pés, repouso debaixo da árvore e uma refeição saborosa. Então a visita que não duraria mais que uns 30 minutos levou horas. Obviamente, porque pães foram preparados, um novilho foi morto e assado e isso leva tempo.

O Senhor deixou-se ficar. O Senhor esperou pacientemente que as demonstrações de hospitalidade e reverência por parte de Abraão fossem levadas a efeito. Ele e os outros dois varões tiveram seus pés lavados e “descansaram” debaixo da árvore. Ingeriram a refeição cuidadosamente preparada para eles. Abraão permaneceu de pé junto aos visitantes, debaixo da árvore, provavelmente embevecido com tudo, sem fome, alimentando-se apenas daquele momento glorioso o qual ficaria para sempre em sua memória.

Detalhe: O Senhor da Vida certamente não estava com fome nem cansado nem com calor. O Senhor e seus anjos não precisavam de nada, de nenhum conforto humano. Quanto a mim, acho mesmo engraçada a idéia de Abraão desdobrando-se em cuidados tão humanos. Não lhe teria passado pela cabeça que aqueles varões pudessem não apreciar aquelas iguarias? Será que em algum momento ele imaginou que o Senhor precisava de alguma coisa?


Abraão não se preocupou com detalhes teológicos nem em raciocinar sobre qual tipo de oferenda seria aceitável. Como Pedro, Tiago e João, ele apenas queria prolongar aquilo, ficar junto. Agiu então na singeleza de sua humanidade oferecendo o que possuía de melhor: a mais absoluta reverência e hospitalidade, a mais gostosa comida. Era o que ele possuía. E foi aceito.

Algumas verdades maravilhosas podem ser percebidas através desse episódio registrado em Gênesis:

1 - Não foi a partir da encarnação do Verbo que o Senhor demonstrou sua disposição de “descer” a nós, de conviver com os humanos e com eles compartilhar momentos simples. Desde sempre isso esteve no coração de Deus. Ele, que jamais precisou de coisa alguma, prestou-se a descansar sem estar cansado e comer e beber sem ter fome e sede só em atenção ao pedido de Abraão.

O nascimento de Jesus foi o auge da revelação de Deus aos homens. Seu nascimento foi a declaração, clara como o sol, de que Deus está conosco. Foi a prova mais veemente da boa vontade de Deus para com os homens. Mas antes disso, bem antes disso, Ele já se revelava em momentos assim, simples e gloriosos: comendo com os humanos, deixando-se ficar.

2- Deus não tem pressa. Se pedirmos “fica, Senhor” ele fica. Ele caminha conosco “a segunda milha” porque nos ama, apenas por isso. Como dissemos, a visita de minutos transformou-se em visita de horas apenas porque Abraão pediu. O Senhor aprecia “ser detido” por nós. Foi assim com os discípulos no caminho de Emaús; foi assim com Jacó, lutando com o Anjo do Senhor.

Sempre achei estranhíssimo esse episódio de Jacó lutando com o Anjo. Como “lutando”? E por acaso o Anjo do Senhor poderia ser detido por esforço humano? Não bastaria um simples sopro para que Jacó fosse lançado por terra, absolutamente derrotado?

Que não me falte reverência ao dizer que o Senhor “brinca de ser humano” para nos sentimos mais próximos dele, para nos “desassustar”.

“Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares.” (Gênesis 32:26) Isso sempre me intrigou. Até que atentei para o fato de que o Senhor sempre quis mostrar sua capacidade de “entender nosso tamanho”, entender nossas dores, nossa humanidade. Deus fez-se humano para nos mostrar também o quanto nós, humanos, somos valiosos para Ele, uma vez que Ele não teve pudor de se parecer, em alguns momentos, conosco.

3- É verdade: Deus gosta de ser “detido” pelos humanos. Aqueles varões permaneceram mais tempo com Abraão sem relutância; o Anjo do Senhor “deixou-se prender” por Jacó; Jesus não se fez de rogado e acompanhou os discípulos que estavam a caminho de Emaús.

Deus não tem pressa de “ausentar-se de nós”. Nossas orações, nossos pedidos, nosso desejo de afago encontram eco no coração de Deus. Para nos abençoar Ele é capaz de sentar conosco e comer peixe assado como se fosse humano, como se fosse um de nós. E isso não o diminui, pelo contrário: mais glorioso ainda nos parece.

4- Observe que nas várias ocasiões mencionadas acima as pessoas não pediram a “visita de Deus”. O que vemos são episódios absolutamente inesperados. São bênçãos não suplicadas.

Todos os dias somos abençoados grandemente pelo Senhor, nas formas mais diversas. Nem tudo o que temos recebido advém de uma oração explícita. Deus toma sempre a iniciativa de renovar sobre nós as suas misericórdias todas as manhãs. São as iniciativas amorosas de Deus.

Mas fora isso... Fora isso podemos desejar mais. Podemos almejar mais intimidade, experiências mais profundas, estar mais tempo recostados em seu ombro. “- Um pouco mais, Senhor! Deixa-te estar! Prolonga esse momento glorioso porque meu coração pede! Fica conosco, Senhor! Em tua presença há abundância de alegrias.” Isso não o importuna. Podemos sim querer mais.

Ele prometeu estar conosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Essa é a iniciativa de Deus. Mas podemos e devemos buscar mais proximidade. Podemos “dete-lo” sim. Embora não tenhamos esse poder Ele tornará isso possível para alimentar nosso coração com sua presença. Nossa humanidade não o repele, pelo contrário: Ele “faz-se humano” usando uma linguagem que aquece nosso coração e a tal ponto que podemos senti-lo como o amigo mais próximo. Ele nos afaga, recebe alegremente nossas oferendas - das quais não precisa absolutamente. Ele aceita e aprecia nosso exercício de humanidade. Fomos feitos assim, carentes dele. Ele não despreza nossas “prosaicas” demonstrações de afeto. Não precisa de nossa comida nem de nosso dinheiro, mas não resiste a um coração quebrantado e contrito. O Deus de amor não se nega diante de um coração amoroso que pede “Se encontrei mercê diante de ti, fica mais um pouco! Aceita minha oferta! Come do meu churrasco! Deita em minha rede”!

Deus Conosco; Deus presente entre os homens muito antes da vinda do Messias. O Deus sem pressa. O Deus que come, bebe conosco e ainda assa peixe (João 21:7-12) para nos confortar em nosso cansaço e frio.

Se você pegar na orla de suas vestes, não será repreendido, mas acalentado.

Fica conosco, Senhor!

Cristina Faraon

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